{"id":24243,"date":"2026-06-17T16:55:41","date_gmt":"2026-06-17T19:55:41","guid":{"rendered":"https:\/\/meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br\/?p=24243"},"modified":"2026-06-17T16:55:42","modified_gmt":"2026-06-17T19:55:42","slug":"trabalho-e-saude-mental-no-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cdn.meusitejuridico.com.br\/2026\/06\/17\/trabalho-e-saude-mental-no-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"Trabalho e Sa\u00fade Mental no Neoliberalismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Desenvolvi minha explana\u00e7\u00e3o em tr\u00eas pontos que considero fundamentais:<\/p>\n\n\n\n<p>1. O trabalho n\u00e3o era o que entendemos hoje por tal e com as virtudes que acreditamos o mesmo possuir &#8211; existe uma hist\u00f3ria do trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas grandes civiliza\u00e7\u00f5es o trabalho era nitidamente diferenciado do n\u00e3o trabalho ou ociosidade. Acho que ainda o \u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>Desde as mais remotas sociedades esta divis\u00e3o conferia status e poder aos ociosos que podiam se dedicar \u00e0s atividades m\u00edsticas e planejar a sobreviv\u00eancia material na natureza; e em alguns casos tamb\u00e9m as atividades ligadas \u00e0 guerra &#8211; nas sociedades primevas os conflitos armados s\u00e3o atividades pol\u00edticas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na antiguidade, como na Gr\u00e9cia, o trabalho nobre ou superior era dedicado \u00e0 filosofia, pol\u00edtica, justi\u00e7a, \u00e0s artes e aos jogos (jogos f\u00edsicos e intelectuais como a poesia e a representa\u00e7\u00e3o teatral). Os trabalhos menos nobres eram os dedicados \u00e0 economia &#8211; trabalho na terra e no lar efetuado por estrangeiros, escravos e em alguns casos atribu\u00eddos \u00e0s mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o muda substancialmente em Roma, a n\u00e3o ser pelo fato do ex\u00e9rcito legion\u00e1rio e as guerras de expans\u00e3o do Imp\u00e9rio serem al\u00e7adas a nobres ap\u00f3s a Lei das XII T\u00e1buas no s\u00e9c. V a.C.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Idade M\u00e9dia, reis, pr\u00edncipes, clero e alguns poucos clientes viviam na ociosidade, enquanto mais de 90% eram servos da gleba ou trabalhadores bra\u00e7ais, com alguns artes\u00e3os. A grande atividade dos nobres era a guerra, dos membros do clero o pastoreio e a vigil\u00e2ncia da obedi\u00eancia \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es da igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>Um par\u00eantesis eu preciso fazer para uma observa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, mas importante: j\u00e1 perceberam que aqui quando uso a palavra &#8216;trabalho&#8217;, estou a pensar em atividades econ\u00f4micas b\u00e1sicas &#8211; trabalho aqui s\u00e3o as atividades necess\u00e1rias a produzir os bens e v\u00edveres necess\u00e1rios \u00e0 sobreviv\u00eancia material dos homens. Por outro lado, quando falo de &#8216;ociosidade&#8217; n\u00e3o estou falando de inatividade, n\u00e3o fazer nada, que \u00e9 o que as pessoas pensam de forma comum, como vagabundagem, mas de um tipo de atividade que n\u00e3o objetiva de forma imediata a produ\u00e7\u00e3o de bens relacionados diretamente com a sobreviv\u00eancia material &#8211; \u00e9 o caso das artes, da filosofia, da religi\u00e3o e da pol\u00edtica (Cf. Arist\u00f3teles, Hegel, Marx, Spinoza).<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos continuar: O trabalho no s\u00e9c. XIX, j\u00e1 ao tempo do pleno desenvolvimento do trabalho industrial, passar\u00e1 por tr\u00eas fases: emprego de homens, depois de mulheres e crian\u00e7as, e novamente de homens (mulheres em casa).<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7a com o homem na f\u00e1brica e a mulher em casa. Mas as primeiras crises e a \u00e2nsia de mais lucro com a diminui\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, devido tamb\u00e9m \u00e0 resist\u00eancia dos oper\u00e1rios \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, as f\u00e1bricas v\u00e3o empregar mulheres e crian\u00e7as, uma m\u00e3o de obra mais barata e supostamente &#8216;d\u00f3cil&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta segunda fase foi um desastre social: homens inativos que ficavam perambulando sem o que fazer, pois n\u00e3o ficavam em casa e n\u00e3o iam cuidar dos filhos, foram capturados pelos &#8216;v\u00edcios&#8217; como se falava na \u00e9poca: pela bebida, roubo, homic\u00eddio, neg\u00f3cios il\u00edcitos, prostitui\u00e7\u00e3o e doen\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o veio a terceira fase, semelhante \u00e0 primeira, mas agora planejada para a m\u00e1xima produtividade industrial e ganhos de capital. Na terceira fase a mulher n\u00e3o est\u00e1 fora da produ\u00e7\u00e3o, mas o seu trabalho complementa e proporciona a explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra fabril, pois s\u00e3o suas atividades que possibilitam as condi\u00e7\u00f5es de melhor rentabilidade na f\u00e1brica por parte dos oper\u00e1rios, al\u00e9m, \u00e9 claro, de gerar os futuros oper\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, algo assim ainda \u00e9 bastante presente na nossa divis\u00e3o social do trabalho. E isto, acho, \u00e9 o mesmo se se inverte os pap\u00e9is de g\u00eanero no trabalho hoje (Cf. Roswitha Scholz, este \u00e9 o conceito de &#8216;dissocia\u00e7\u00e3o&#8217; (O valor \u00e9 o homem)). Como voc\u00eas veem, podemos facilmente nos identificar hoje, quase 200 anos depois, como permanecendo nesta terceira fase.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que ainda \u00e9 o mesmo do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de capital: um dos c\u00f4njuges desempenha a fun\u00e7\u00e3o de assalariado e o outro cuida das atividades de &#8216;retaguarda&#8217; &#8211; inverte-se o papel do marido e da esposa. A sociedade do s\u00e9c. XXI o permite facilmente. A explora\u00e7\u00e3o ontem \u00e9 hoje a precariza\u00e7\u00e3o do Uber ou Ifood! Mas com tecnologia!<\/p>\n\n\n\n<p>A Rev. Francesa (1789) ao apregoar a meritocracia para se opor ao regime aristocr\u00e1tico de favores, favoreceu a ideia do trabalho que dignifica e liberta, uma ideia bastante protestante e que depois a burguesia toma como \u00edcone do regime do capital.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia que o trabalho liberta (como estava escrito no campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista!), que dignifica o homem, que afasta dele o mal, que \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o moral e um comportamento adequado, ao contr\u00e1rio da &#8216;vagabundagem&#8217;, foi se cristalizando na cultura ocidental a partir do s\u00e9c. XV e ao longo de todo Renascimento, e tem o objetivo de preparar o homem para o advento da Rev Industrial (1798), da produ\u00e7\u00e3o fabril &#8216;confinada&#8217; e &#8216;departamentalizada&#8217; da produ\u00e7\u00e3o mercantil, da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, da instaura\u00e7\u00e3o do mercado concorrencial sob hegemonia da classe burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o conceito de trabalho como exclusivamente material e econ\u00f4mico, possibilita a persegui\u00e7\u00e3o, enclausuramento e barateamento da m\u00e3o de obra, e controle policial-estatal, e social, dos que n\u00e3o aderirem a este mundo do trabalho, os tidos como vagabundos (Michel Foucault (Vigiar e Punir)).<\/p>\n\n\n\n<p>A vida moderna possibilita a troca e diversidade de pap\u00e9is sociais e das institui\u00e7\u00f5es tradicionais, como o de mulheres e homens, e da fam\u00edlia. Os oper\u00e1rios e suas mulheres submetidos ao trabalho fabril n\u00e3o podiam sequer pensar em algo diferente do que a sociedade burguesa definia e sustentava como ideal e aceit\u00e1vel. Ali\u00e1s, n\u00e3o por acaso, o burgu\u00eas do s\u00e9c. XIX \u00e9 t\u00e3o conservador: ele n\u00e3o pode ser em fam\u00edlia diferente do que seus neg\u00f3cios capitalistas o exigem na f\u00e1brica (contra o qual se insurgem os jovens seus filhos, em um movimento culturalmente conhecido como Romantismo, que antecipa no final do s\u00e9c. XIX, o Modernismo).<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que precisamos refletir isto: as conquistas dos chamados direitos civis, dos direitos humanos, dos movimentos por reconhecimento, nos fizeram mais humanos, saud\u00e1veis e felizes? Nossa adapta\u00e7\u00e3o ao mundo tecnol\u00f3gico contempor\u00e2neo \u00e9 algo substancialmente inovativo e pensado para o bem viver de todas e todos, ou apenas seria uma cont\u00ednua adapta\u00e7\u00e3o ao regime de acumula\u00e7\u00e3o privada mercantilista (ainda no processo de expans\u00e3o do regime mercantil)? Podemos refletir sobre isto ficando em nosso exemplo da troca dos pap\u00e9is, quanto \u00e0s atividades dos parceiros familiares, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e das ondas gigantes e incontorn\u00e1veis do desemprego, e o que estamos aceitando negociar e nos sujeitar como pessoas e como trabalhadores?!<\/p>\n\n\n\n<p>2. O trabalho no liberalismo \u00e9 capitalismo. Conhecemos bem a sociedade de livre mercado &#8211; as caracter\u00edsticas da f\u00e1brica se espalham por toda a vida social: especializa\u00e7\u00e3o, departamentaliza\u00e7\u00e3o, segmenta\u00e7\u00e3o voltada para a m\u00e1xima produtividade na produ\u00e7\u00e3o de mercado. Depois vem os &#8216;colarinhos brancos&#8217;, os gestores, no come\u00e7o o propriet\u00e1rio, depois a sua fam\u00edlia, finalmente os gerentes. A par disso devem ser eliminadas as legisla\u00e7\u00f5es protecionistas do trabalhador e privatizar os servi\u00e7os p\u00fablicos para que as pessoas tenham que contratar os servi\u00e7os nos bancos e demais empresas privadas &#8211; desde o final dos anos 80 e virada do mil\u00eanio assistimos \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o do papel do Estado e \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o de todos os seus servi\u00e7os p\u00fablicos. Isto \u00e9 assim para manter o mercado global na manuten\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que n\u00e3o \u00e9 isto que gera lucro, mas a explora\u00e7\u00e3o, mais valor retirado dos trabalhadores assalariados (Marx, cap1 d&#8217;O Capital; David Harvey, Os limites do capital). E isto que \u00e9 a crise do capital sempre: como retirar mais valor dos assalariados se eles se tornam obsoletos para as tecnologias de automa\u00e7\u00e3o e informatiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas gostaria de destacar aqui hoje essa coisa da forma de trabalho industrial no sistema do capital, o particionamento, segmenta\u00e7\u00e3o do trabalho, a redu\u00e7\u00e3o num\u00e9rica do humano, a perda da vis\u00e3o de totalidade, a falta de tempo para a ociosidade criativa. Particionado na fabrica\u00e7\u00e3o e reduzido na especializa\u00e7\u00e3o setorizada, submetido a uma ger\u00eancia desumana e \u00e0 m\u00e1xima efici\u00eancia ditada pelo custo benef\u00edcio das tecnologias e m\u00e1quinas, o que \u00e9 o trabalhador assalariado, esteja ele onde estiver, seja qual for o seu of\u00edcio?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele \u00e9 um ser alienado, n\u00e3o sabe o que faz e para que faz, n\u00e3o pode saber al\u00e9m do que lhe est\u00e1 dado de imediato, n\u00e3o pode criar al\u00e9m disso. Ele perde sua identidade pr\u00f3pria, ele perde a vis\u00e3o sist\u00eamica da totalidade, ele n\u00e3o distingue as coisas, os lugares, as rela\u00e7\u00f5es, as pessoas, o afeto, o gozo da vida, porque sendo tudo e todos reduzidos a algo bastante divis\u00edvel, tudo \u00e9 diferente numericamente, mas igual em sua pequenez, em seu particionamento, sem grande import\u00e2ncia. O conceito de Unidimensionalidade de Herbert Marcuse explica bem o que somos na sociedade industrial (A ideologia da sociedade industrial).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aliena\u00e7\u00e3o! Queria aqui chamar a aten\u00e7\u00e3o para isso, porque tem a ver com minha sugest\u00e3o de falar para voc\u00eas, com minha hip\u00f3tese\/ tese em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade das pessoas, principalmente a sa\u00fade espiritual ou mental. E com isso me encaminho para o final.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Nas sociedades industriais modernas, devido \u00e0 prem\u00eancia da l\u00f3gica do lucro e acumula\u00e7\u00e3o privada da riqueza, o que s\u00f3 pode acontecer pelo &#8216;consumismo&#8217; desenfreado e irracional das coisas, a vida se torna um c\u00e1lculo permanente, as decis\u00f5es humanas s\u00e3o custo-benef\u00edcio, o afeto se vende e a felicidade se compra como na prateleira do supermercado. O homem ele pr\u00f3prio \u00e9 um n\u00famero usado e medido de muitas formas (John Holloway (Mudar o mundo sem tomar o poder)).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo o homem \u00e9 uno com o Universo, tudo \u00e9 uno j\u00e1 nos dizia Giordano Bruno em 1548: somos um sistema s\u00f3 e tudo est\u00e1 conectado. O homem s\u00f3 \u00e9 o homem porque cria, concebe, planeja e faz. Fazer por fazer n\u00e3o \u00e9 humano e n\u00e3o nos faz mais humanos, ao contr\u00e1rio. O consumo idem. E aqui espero ter demonstrado ao menos para nossa reflex\u00e3o o que \u00e9 o fazer no mundo do trabalho&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O capital na sua espiral de acumula\u00e7\u00e3o consegue a proeza de dividir tudo ao n\u00edvel de seus elementos mais simples, reduzir o assalariado ao fazer banal e mais elementar, porque isso \u00e9 pr\u00f3prio a gerar mais valor, diminuindo os sal\u00e1rios sempre, quanto muito \u00e0 cesta b\u00e1sica, s\u00f3 para atender ao consumo das mercadorias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda o faz assim para as massas de trabalhadoras e trabalhadores, mas com a ci\u00eancia e a tecnologia mais avan\u00e7ada, ele cria desemprego, especula, especula com a extrema produtividade dos que est\u00e3o empregados, precariza o trabalho, mas joga todas e todos para fora de seus pr\u00f3prios mecanismos. Paralelamente, o que produz a redu\u00e7\u00e3o do humano, que produz a mis\u00e9ria e a barb\u00e1rie de milh\u00f5es, pode vir a libertar o homem da doen\u00e7a e do holocausto (j\u00e1 est\u00e1 em curso a escolha dos superiores e a elimina\u00e7\u00e3o dos demais).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu concluo: para os que est\u00e3o tentando sobreviver neste mundo do trabalho mercantil, pelo regime individualista de distribui\u00e7\u00e3o de riqueza, s\u00f3 pode lhes advir um existir &#8216;sem vida&#8217;! Aqui e ali, passa a ser poss\u00edvel come\u00e7ar a experimentar uma outra vida para que um dia a humanidade volte a s\u00ea-lo, a exist\u00eancia seja afinal superior a simplesmente viver (Heidegger (Ser e tempo)).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desenvolvi minha explana\u00e7\u00e3o em tr\u00eas pontos que considero fundamentais: 1. 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